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| Lavagem cerebral: sete formas de se reinventar |
| Escrito por Seth Godin | ||
Há uns anos atrás, quando tinha cerca de quatro anos de idade, o sistema definiu-se para o persuadir de uma coisa que não é verdade. Não apenas persuadir, mas martelar, praticar, reforçar e, sim, lavagem cerebral.
A missão: ensinar-lhe que é medíocre; que o trabalho obediente é melhor forma a seguir para obter uma vida séria; que criar coisas medíocres para pessoas medíocres, uma e outra vez, é uma forma fácil e simples para conseguir o que pretende. Sair dos trilhos e do sistema irá forçá-lo (ou empurrá-lo) novamente para o centro. Demonstre sinais de verdadeira criatividade, originalidade ou até mesmo genialidade, e os pais, professores e figuras de autoridade bem intencionadas irão alinhar-se de forma ávida para o colocar novamente nos trilhos. A nossa cultura necessita de trabalhadores obedientes, pessoas que contribuam sem se queixarem e nós definimo-nos para criar a maior quantidade que conseguirmos. Desta forma, gerações de estudantes tornaram-se em gerações de engrenagens – trabalhadores de fábricas à procura de uma sinecura. Lavaram-nos o cérebro para que nos integrássemos e depois descobriram que afinal a economia queria pessoas que se destacassem. Quando exactamente é que nos lavaram o cérebro para que acreditássemos que a melhor forma de ganhar a vida é ter um emprego? Penso que cada um de nós tem de começar por aí. Ao longo do tempo, o benefício de trabalhar para o homem e o seguir um manual como uma engrenagem cumpridora irá desvanecer, enquanto, paradoxalmente, a dificuldade de conseguir um emprego decente irá aumentar. Vivemos ao longo de umas quantas gerações de grandes empresas que cresceram ainda mais, burocracias gigantes que cresceram ainda mais e trabalhos de escritório que vão muito e muito para além do que fazer alguma coisa que um cliente possa comprar. E em seguida, muito repentinamente, isso desvaneceu. O desemprego subiu, a redução de efectivos surgiu, camadas de gordura desapareceram e a ideia de que irá conseguir um bom emprego, dentro de portas, bem pago, sem fazer muito com excepção de ver o cão que morde no piloto se este se intrometer com o piloto automático…bem, esses empregos desapareceram. É isto assim? Está tudo terminado para si? É este o final da estrada, o melhor é ir buscar, o inicio do fim? O mesmo emprego, mas mais trabalho, menos ordenado. Mesma empresa, mas com menos crescimento, sem desafios. Mesmo caminho, menos opções. É perfeitamente possível que tenha se tenha arrastado penosamente o tão longe quanto possível nesta estrada e que o trabalho árduo venha apenas a ser mais do mesmo. É possível. Mas eu não acredito. Porquê? Porque existe mais alavancagem, mais graus de liberdade e mais oportunidades hoje em dia do que alguma vez existiram – caso esteja à altura para a escolha. A nova revolução industrial (aquela que estamos a viver, aquela que está a mudar tudo) abriu portas a qualquer um (ou seguramente a qualquer um com recursos suficientes e uma educação que o torne capaz de ler este documento). Se dispõe do tempo, do intelecto e do acesso de colocar as suas mãos numa ideia e de a espalhar conforme este manifesto o fez, então dispõe da capacidade de se reinventar, não obstante aquilo que faz, o que faz com isso, ou do que as pessoas à sua volta esperam. Os pilares com os quais crescemos (coisas como a General Motores, Televisão, os correios, a reforma, meios de comunicação de acordo com modelos top down e bens de primeira necessidade) estão a desaparecer e estão a ser substituídos por formas completamente novas de interagir, marcando uma vivência e marcando uma diferença. Não apenas para organizações, mas também para indivíduos – pessoas como você. Se dispõe do tempo, do intelecto e do acesso de colocar as suas mãos numa ideia… então dispõe da capacidade de se reinventar. Olhe à sua volta. Quem são as pessoas de sucesso no seu mundo, hoje em dia? Não é o Jack Welch, o “Capitão de Indústria”, nem é o pensionista, o trabalhador fabril que se levantou para ir trabalhar todos os dias durante cinquenta anos. Ocorreu uma mudança fundamental mesmo por baixo dos nossos narizes. O sistema – o tão vangloriado sistema, o sistema que nutriu os nossos pais e até mesmo os nossos avós – tornou-se azedo. Por outras palavras: lavaram-nos o cérebro. Lavaram-nos o cérebro para que acreditássemos num conjunto de regras que (já) não correspondem à verdade. E uma vez que a lavagem cerebral foi tão completa, as mudanças no nosso mundo e as novas oportunidades que estas abriram são facilmente vistas como formas de abordar o hesitante sistema do passado. Por favor, não se deixe enganar. Não utilize as ferramentas de hoje para sustentar o seu esforço em fazer o trabalho de ontem melhor. Esta é uma oportunidade de reinventar completamente o seu papel no sistema. Faça um trabalho que interesse. Cinco palavras disponíveis para qualquer um. Elas estão aqui se as quiser. A economia deu-lhe alavancagem – a alavancagem para fazer a diferença, a alavancagem para espalhar as suas ideias e a alavancagem para causar impacto. Mais pessoas têm mais alavancagem (mais hipóteses e mais poder) para mudar o mundo do que em qualquer outro momento na história. O que é que vai fazer quanto a isso? Quando? A economia deu-lhe alavancagem – a alavancagem para fazer a diferença, a alavancagem para espalhar as suas ideias e a alavancagem para causar impacto. Aqui estão sete alavancas disponíveis para qualquer pessoa (como você) que procure reinventar-se:
LIGUE-SE As redes sociais talvez sejam uma perda de tempo, dedicada a coscuvilhices e à caça de gambozinos ou talvez apenas, uma fenda na parede entre você e o resto do mundo. É uma escolha…que terá de fazer. Se está a contar o número de seguidores que tem, quantos comentários lhe fazem ou qual é o tamanho da sua pegada online, então está a medir o que não interessa e está provavelmente a distrair-se daquilo que realmente importa. Por outro lado, as redes digitais podem oferecer-lhe uma oportunidade para estabelecer relações reais, conseguir a permissão e conseguir a atenção de pessoas com as quais nunca teria hipótese de interagir de nenhuma outra forma. Estávamos isolados mas agora estamos ligados. O indivíduo típico não tinha o tempo, o dinheiro ou as ligações para se fazer ouvir há apenas alguns anos atrás. Hoje, a porta está aberta… mas só as pessoas que nos conseguem tocar conseguem passar da soleira. Se conseguir alcançar e (muito mais importante) tocar e mudar as pessoas, ganhará influência, autoridade e poder. Shepard Fairey fez um poster de Barack Obama. A Internet ajudou à sua propagação. O poster ligou um apoiante a outro apoiante e tornou-se um ícone, um crachá de identidade partilhado (e, em última instância, motivo de paródia). E no centro da propagação estava o artista. Pouco importa o facto de Fairey não ter ganho um centavo com a imagem. Aquilo que interessa é que se ligou e que essas ligações deram alavancagem à sua arte. Nunca mais precisará de ir à procura de trabalho ou rendimentos. Estes irão ter com ele. Crescemos de forma isolada. O futuro é ligado. Crescemos incapazes de ter interacções substanciais, excepto com um pequeno círculo de familiares e colegas de trabalho. Agora, temos o direito de interagir com qualquer pessoa. Penso que isto muda tudo… se assim o permitirmos. SEJA GENEROSO A nova economia envolve, com frequência, a troca de elementos que não custam dinheiro. Não há custos incrementais na escrita de um ensaio, na composição de uma canção ou na produção de uma introdução. Uma vez que brincar não custa dinheiro, temos a possibilidade de dar antes de receber. A economia da generosidade premeia as pessoas que criam e participam em círculos de presentes. Não a actuação normal do “eu-dou-te-isto-tu-dás-me-aquilo-e-depois-acabou-se” da economia tradicional, mas antes a economia tribal de indivíduos que se apoiam mutuamente. As tribos de indivíduos com talento que estão ligados entre si, que confiam e apoiam numa base mútua, estão na posição de criar um movimento, de dar elementos com valor, de movimentar ideias para a frente e de uma forma mais rápida do que qualquer individuo conseguiria se isolado. A economia da generosidade premeia as pessoas que criam e participam em círculos de presentes.
Derek Sivers criou o CDBaby.com a partir de um quarto e transformou-o numa empresa independente de vendas de música, que agora vale vários milhões de dólares. Sob a sua gestão, vendeu mais música de mais artistas do que qualquer outra pessoa na história. O segredo? Passou quase a totalidade do seu tempo a apoiar os artistas. O software que desenvolveu, os artigos que escrevia, os sistemas que instituiu – eram presentes, contribuições generosas que Derek dava aos artistas com quem trabalhava. Em retorno, os artistas construíram uma comunidade viva, uma comunidade que só poderia dar em lucro. FAÇA ARTE A arte é um presente original, uma ligação que muda o interlocutor, uma capacidade humana em fazer a diferença. A arte não é um quadro nem sequer um poema – é algo que todos podemos fazer. Quando interage com os outros, tem a oportunidade para criar algo novo – algo que possa mudar tudo. Eu chamo-lhe arte. A arte é o oposto da trignometria. A arte não segue instruções ou um manual ou as ordens do patrão. Em vez disso, a arte é o acto humano de criar o que ainda não foi criado, de ligarmo-nos a outra pessoa num nível humano. Aquilo a que assistimos é que cada vez mais mercados irão recompensar a arte de uma forma bela e que irão atribuir o trabalho ao licitador mais baixo. Kathy Sierra é uma artista quando nos ensina sobre os interfaces de utilizador e a Mary Ann Davis faz arte quando leva ao extremo a cerâmica. A arte parece uma coisa arriscada porque de facto o é. O risco que o artista assume é que talvez possamos não gostar da sua arte, talvez não nos sintamos tocados, possamos até nos rir do esforço. E são esses mesmos riscos que o levarão a uma recompensa. Quando interage com os outros, tem a oportunidade para criar algo novo – algo que possa mudar tudo. Eu chamo-lhe arte. RECONHEÇA O RÉPTIL O sistema reptiliano – o tronco cerebral pré-histórico com o qual a maioria dos humanos luta – não gosta de ser gozado. É a parte do nosso cérebro que se preocupa com a segurança e que expele a raiva. Ser gozado é o pior pesadelo do “réptil”. E por isso enclausura a sua arte. Steven Pressfield chama a esta clausura “a resistência.” A resistência é aquela voz na sua cabeça que o mantém de cabeça baixa e que o encoraja a seguir instruções. A resistência vive no medo e não hesite em nos enclausurar ao primeiro sinal de possibilidade de ridículo ou ao primeiro sinal de ostracização. A resistência é a voz que é activada durante a lavagem cerebral, porque a resistência é facilmente estimulada. Quando o nosso professor nos ameaça com (qualquer castigo disponível) quando não trabalhamos na escola, iremos fazer o nosso trabalho. A resistência vence. O risco que o artista assume é que talvez (…) possamos até nos rir do esforço. E são esses mesmos riscos que o levarão a uma recompensa. Aquilo que os artistas perceberam com o tempo é que a resistência é a única barreira entre o hoje e a sua arte. Que a atitude de génio, necessária para produzir trabalhos originais e importantes, é mutilada pela resistência e que ignorar a voz do cepticismo é vital para fazer o trabalho. E, por isso, reconhecemo-lo. Erguemos e ouvimos a voz do sistema reptiliano e reconhecemos que está lá e depois caminhamos até ao pódio e fazemos o que temos a fazer. Reconhecemos o réptil para que o possamos ignorar. ENVIE A escassez gera valor. As pessoas irão pagar mais por coisas que são difíceis de obter, ao passo que as coisas com excedentes são vendidas mais baratas. Isto é economia básica. Portanto, o que é escasso? A capacidade de enviar. Se conseguir colocar alguma coisa para fora da porta ao mesmo tempo que os seus concorrentes se encolhem com medo, vence. Se é o membro da equipa que faz as coisas acontecerem, torna-se indispensável. Se você ou a sua organização são os (únicos) que conseguem fazer as coisas, fechar vendas, enviar produtos e fazer a diferença, são os indispensáveis – aqueles sem os quais não conseguimos viver. O envio de encomendas é difícil por causa do sistema reptiliano. A resistência não quer que envie nada, porque se enviar, poderá falhar. Se enviar, poderemos rir-nos de si. Se enviar, poderá tornar-se responsável pelas decisões que tomou. A chave para se reinventar, portanto, é tornar-se numa pessoa que envia. O objectivo é ter a capacidade rara de fazer as coisas, fazer com que as coisas aconteçam e criar resultados maiores do que as expectativas das pessoas. O Michael Dell envia. E o Larry Ellison e a Anne Mulcahy também. Silenciar o réptil, reconhecê-lo e depois ignorá-lo – é a única maneira. FALHE Uma parte essencial no envio de produtos é a capacidade de falhar. A reinvenção do mercado exige que uma pessoa tenha a capacidade de falhar frequentemente e em estado de graça – e em público! A economia antiga baseava-se em fábricas e instituições, coisas que demoravam muito tempo a construir. Ninguém na Buick ou na Metropolitan Opera estava interessado em falhar. Estas instituições demoraram muito tempo a serem criadas para que eles pudessem contemplar a ideia de crescimento através do falhanço. Hoje, no entanto, a única forma que as organizações têm de sobreviver é através do envio de coisas arriscadas, da criação de mudança, da criação de arte, da mudança das pessoas. E, no entanto, o envio implica falhar. E, portanto, exigimos que falhe. Espero que esteja preparado. Ao longo de anos, os artistas tentaram fingir alguma indiferença. Até existe uma palavra para isto: Sprezzatura. É uma palavra italiana que pode ser definida como “uma certa indiferença, de forma a ocultar toda a arte e fazer qualquer coisa que alguém diga ou faça parecer ter sido feito sem esforço e quase sem muita reflexão.” Agora precisamos de uma palavra nova, uma que signifique o oposto. É o esforço óbvio e supremo que cria a arte, que desafia o réptil e que luta contra a resistência. A reinvenção do mercado exige que uma pessoa tenha a capacidade de falhar frequentemente e em estado de graça – e em público! APRENDA O sétimo pilar é a chave para os outros seis. A escola existia para que aprendêssemos um ofício. Praticávamos e depois trabalhávamos até ao fim da nossa vida no mesmo trabalho, na mesma cidade, na mesma fábrica, a fazer o mesmo trabalho. Ah. Sonhe com isso. Só os faroleiros têm esse luxo hoje em dia e quando foi a última vez que conhecer um faroleiro? Trazer a mentalidade da escola para o trabalho hoje em dia é cortejar o falhanço. A escola não acabou. A escola é agora. As escolas são blogues e experiências e falhar constantemente o envio e a aprendizagem. Já tomou o primeiro passo. Leu algo que o desafia a pensar de forma diferente. O caminho para a reinvenção, no entanto, é somente isso – um caminho. A oportunidade do nosso tempo é descartar o que pensa que sabe e aprender o que realmente precisa de saber. Todos os dias. Seth Godin é um guru do marketing. Autor de diversos livros de referência, é também consultor de gestão e professor. É responsável pelo blogue Seth’s Blog, que recomendamos
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“Vou dizer-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.
Há muitas coisas que parecem pesadas ao espírito, ao espírito robusto e paciente, e todo imbuído de respeito; a sua força reclama fardos pesados, os mais pesados que existam no mundo.
‘O que é que há de mais pesado para transportar?’ — pergunta o espírito transformado em besta de carga, e ajoelha-se como o camelo que pede que o carreguem bem.
‘Qual é a tarefa mais pesada, ó heróis’ — pergunta o espírito transformado em besta de carga, a fim de a assumir, a fim de gozar com a minha força?
Não será rebaixarmo-nos, para o nosso orgulho padecer? Deixar refulgir a nossa loucura para zombarmos da nossa sensatez?
Não será abandonarmos uma causa triunfante? Escalar altas montanhas a fim de tentar o Tentador?
Não será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento, e obrigar a alma a jejuar por amor da verdade?
Ou será estar enfermo e despedir os consoladores e estabelecer amizade com os surdos que nunca ouvem o que queremos?
Ou será submergirmo-nos numa água lodosa, se esta é a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os abrasados sapos?
Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma que nos procura assustar?
Mas o espírito transformado em besta de carga toma sobre si todos estes pesados fardos; semelhante ao camelo carregado que se apressa a ganhar o deserto, assim ele se apressa a ganhar o seu deserto.
E aí, naquela extrema solidão, produz-se a segunda metamorfose; o espírito torna-se leão. Entende conquistar a sua liberdade e ser o rei do seu próprio deserto.
Procura então o seu último senhor; será o inimigo deste último senhor e do seu último Deus; quer lutar com o grande dragão, e vencê-lo.
Qual é este grande dragão a que o espírito já não quer chamar nem senhor, nem Deus? O nome do grande dragão é ‘Tu deves’. Mas o espírito do leão diz: ‘Eu quero.’
O ‘tu deves’ impede-lhe o caminho, rebrilhante de ouro, coberto de escamas; e em cada uma das suas escamas brilham em letras de ouro estas palavras: ‘Tu deves.’
Valores milenários brilham nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim:
‘Em mim brilha o valor de todas as coisas. Todos os valores foram já criados no passado, e eu sou a soma de todos os valores criados.’ Na verdade, para o futuro não deve existir o ‘eu quero’. Assim fala o dragão.
Meus irmãos, para que serve o leão do espírito? Não bastará o animal paciente, resignado e respeitador?
Criar valores novos é coisa para que o próprio leão não está apto; mas libertar-se a fim de ficar apto a criar valores novos, eis o que pode fazer a força do leão.
Para conquistar a sua própria liberdade e o direito sagrado de dizer não, mesmo ao dever, para isso meus irmãos, é preciso ser leão.
Conquistar o direito a valores novos, é a tarefa mais temível para um espírito paciente e laborioso. E decerto vê nisso um acto de rapina e de rapacidade.
O que ele amava outrora, como bem bem mais sagrado, é o ‘Tu deves’. Precisa agora de descobrir a ilusão e o arbitrário mesmo no fundo do que há de mais sagrado no mundo, a fim de conquistar depois de um rude combate o direito de se libertar deste laço; para exercer semelhante violência, é preciso ser leão.
Dizei-me, porém, irmãos, que poderá fazer a criança, de que o próprio leão tenha sido incapaz? Para que será preciso que o altivo leão tenha de se mudar ainda em criança?
É que a criança é inocência e esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si própria, primeiro móbil, afirmação santa.
Na verdade, irmãos, para jogar o jogo dos criadores é preciso ser uma santa afirmação; o espírito quer agora a sua própria vontade; tendo perdido o mundo, conquista o seu próprio mundo.
Disse-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se mudou em camelo, o camelo em leão, e finalmente o leão em criança.”
Assim falava Zaratustra, e morava nesse tempo na cidade que se chama Vaca Malhada.
(Nietzsche – Assim Falava Zaratustra, p. 25-26)
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Trecho do livro Esculpir o tempo escrito por Tarkovsky: O que hoje passa por arte é, na sua maior parte, mentira pois é uma falácia supor que o método pode tornar-se o significado e o objectivo da arte. Não obstante, a maior parte dos artistas contemporâneos passa o seu tempo em exibições auto complacentes de método.
A questão da vanguarda é peculiar ao século XX, à época em que a arte vem progressivamente perdendo a sua espiritualidade. A situação é ainda pior nas artes visuais, que hoje estão quase inteiramente privadas de espiritualidade. A opinião corrente é a de que esta situação reflecte a “desespiritualização” da sociedade moderna, um diagnóstico com o qual, a nível de simples constatação da tragédia, concordo plenamente: trata-se mesmo de um reflexo da actual situação. A arte, porém, não deve apenas reflectir, mas também transcender; seu papel é fazer com que a visão espiritual influencie a realidade, como fez Dostoiesvski, o primeiro a expressar de forma inspirada o mal da época.
Este trecho faz parte do prefácio da obra “O retrato de Dorian Gray”.
O artista é o criador de coisas belas.
O objectivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos.
E é tudo. A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas.
Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável. Um artista nunca é mórbido.
O artista pode exprimir tudo. Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de actor o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas.
Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas. O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil.
Oscar Wilde
Publicado em Citações, Stalker | Etiquetado Arseny Tarkovsky, Oscar Wilde, Stalker, Tamanho: Pequeno, Tarkovsky Andrei | 2 Comentários »
- Tela Óleo - My Lady Vanity – Alex Evan Dovas – Coleção Stalker
“Gostaríamos de saber, em crianças não temos coragem — em miúda, abria os olhos e os ouvidos, mas nunca perguntei nada —, deixamo-los envelhecer sem nos dizer, esquecer, perder o tino, morrer, e a história deles deixa de ter testemunhas, a sua história de amor deixa de ter historiógrafo, resta apenas bordar, ser o rapsodo de farrapos e de pedaços, resta apenas fazer como a minha bisavó — era costureira: unir os tecidos, os têxteis, os textos, coser bocados desirmanados de sonhos e de panos, de panos de que são feitos os sonhos. Ignoramos se conseguiriam usá-las, a essas roupas que fabricamos em memória deles fazendo fé em fotografias esmaecidas e relatos soltos. Não se sentiriam um pouco apertados? Já não nos lembramos bem das suas medidas nem do seu tamanho, talvez não tenhamos a medida exacta da sua vida, dos seus amores, mas é assim , só resta tecer, fiar, bordar — claro, claro que não é o texto de origem, não são peças históricas, não estávamos lá, não se consegue reconstituir fielmente a história do amor, é somente uma história de amor, histórias de amor, borda-se, inventa-se, entremeamos as deles e as nossas, não se é fiel — mas que importância é que isso tem? — como dizia a minha bisavó quando lhe fazíamos um relato demasiado longo cujas peripécias se coadunavam mal com a sua própria vivência: isso é romance.”
O amor, romace, Camille Laurens
http://umumbigo.wordpress.com/author/umumbigo/
O que toda arte quer e não pode. – a mais difícil e última tarefa do artista é a representação do que permanece igual, do que repousa em si, do que é alto, simples, do que não leva em conta o atrativo particular; por isso, as supremas configurações da perfeição ética são recusadas pelos artistas mais fracos como assuntos inartísticos, porque, para sua ambição, a visão desses frutos é demasiado penosa: resplandecem para eles dos ramos mais altos da arte, mas falta-lhes escada, ânimo e destreza para poderem se atrever tão alto.
Em si, um Fídias poeta é bem possível, mas, considerando-se a força moderna, quase que somente no sentido do ditado: para Deus, nada é impossível. Já o desejo de um Cloude Lorrain poético é no presente uma imodéstia, por mais que o coração mande aspirar por isso.
A representação do homem supremo, isto é, do mais simples e ao mesmo tempo mais pleno, nenhum artista alcançou até agora; mas talvez os gregos, no ideal de Atena, tenha lançado o olhar mais longe do que todos os homens até agora.
Friedrich Nietzsche
O CAMINHO DA SERPENTE
“Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]“.
“Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora”
Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente
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“Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o vôo,
E no rio os peixes à procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão”.
Arseny Tarkovsky
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